fbpx
Pesquisar

Volta pra Bahia! – Preconceito contra baianos no Sul

Hoje me deparei com uma notícia triste de um nordestino morto na praia de Florianópolis e isso aguçou bastante umas coisinhas que estavam entaladas a tempos na minha garganta, sobre o preconceito contra baianos. Veja a reportagem aqui: http://bit.ly/1OUkWzs

Então resolvi escrever uma coisa que há tempos já queria compartilhar com vocês.  Sou baiana, e a quase dois anos, vim morar em Brusque, Santa Catarina.

Embora os motivos tenham sido bastante precipitados (resolvi que iria acompanhar o meu até então noivo, que veio para cá a trabalho).

Eu poderia falar sobre relatos históricos que comprovam e exemplificam a xenofobia contra nordestinos e baianos. Mas hoje quero apenas abrir o meu coração. Se tiver interesse em saber mais sobre o assunto, recomendo a leitura desses artigos:

Mito da preguiça baiana, não passa de racismo

Preconceito e racismo contra nordestinos – Fato antigo

O Preconceito contra nordestinos no Sul e Sudeste do Brasil

Sugiro também, acompanhar o lindo trabalho do Bráulio Bessa e sua página Nação Nordestina (o blog é esse aqui).

Preconceito contra baianos

Eu chorei, e não é só por causa do corpo de um nordestino estirado nas praias do sul. Lembro como se fosse hoje, quando li a carta de repúdio aos nordestinos (lê-se baianos). Estava vindo pra cá, morrendo de receio. Medo de como seria tratada, como lidaria com isso.

É, e eu chorei, viu! E não foi por causa do corpo, nem dos olhares, nem das piadinhas que ouvia do meu superior e colegas no trabalho, ou porque “Bainice” aqui é coisa horrível, coisa que não presta.

Também não foi pelas inúmeras vezes que tentei não gaguejar para explicar “porque resolvi morar aqui”, ou ressaltar que nem todo baiano sobrevive de bolsa família, que na minha casa nunca me faltou nada, que tinha fartura de água. Não foi pelas inúmeras vezes que comentaram sobre minha cor, meu cabelo ou jeito de falar. Ou porque me disseram “que pra uma baiana, até que eu sou boazinha”, “você não é como os outros baianos”, “nossa, você faz faculdade!?”. Nem tampouco, porque a Dilma foi reeleita e eu tive que aturar os comentários mais ignorantes possíveis.

Chorei porque eu cogitei dizer que era de outro lugar, porque já ocultei minha naturalidade com medo de ser ridicularizada, porque disse que era do “Extremo Sul da Bahia, divisa com Minas e Espírito Santo (e até é), pra ver se tinha menos impacto. Qualquer coisa era válida, pra não falar de cara, “Oxe, eu sou baiana!”.

Mas quer saber, pra ser sincera, nunca tive que me esquivar de tanta gente ignorante e sem cultura como aqui. E isso me fez pensar, que eu não tenho motivos para ter vergonha de onde vim. O ridículo é se acomodar numa tamanha mediocridade, é viver num mundo minimalista, achando que não existe nada além do próprio nariz. É disseminar ódio, ser alienado e falar abobrinhas sem ter um pingo de conhecimento prévio.

Certa vez me disseram pra deixar pra lá, que era assim mesmo, que não vale a pena. Não vale mesmo, mas eu não vou me calar! Não gostou de ver a baiana “arretada” passando na rua? Então quem tem que sentar e chorar agora é você! Porque vai ter baiano no sul sim. E se reclamar trago a mãe, o pai, os irmãos, as primas, o cachorro e o periquito junto! 

Facebook Comments Box
Ster Nascimento

Ster Nascimento, 26 anos. Gosto do meu cabelo cacheado, do meu descontrole sem pé nem cabeça, do meu 8 ou 80 e da minha zarreza perceptível. As vezes sou um amor de pessoa.

5 Comments
  1. Geiza Navarro

    12 de dezembro de 2017 00:03

    Estive a procura de alguém que estivesse compartilhando a mesma dor! Moro a 24 anos em Florianópolis, eu e meu marido somos baianos e nosso filho mais velho também. Esse inclusive, passou em Medicina na UFSC e tem sofrido na pele a rejeição. Depois de passado 20 e tantos anos NUNCA senti tanta vontade de voltar.. Meu medo é começar tudo de novo! Sempre achei que a Bahia fosse como uma Mãe, mas pariu muitos filhos, não consegue sustenta- Los. Nesse momento não sei o que fazer, vontade de voltar, medo de voltar! Vou orar e pedir a Deus que acalme nossos corações depressivos. Doença contagiosa! Uma herança Catarina

  2. Raisa

    5 de fevereiro de 2016 22:54

    ah ster tbm to morando em brusque (to louca pra esbarrar com vc por ai) e é mt nítido o quanto que povo daqui tem uma xenofobia nojenta com os baianos, isso me dá uma raiva danada, quando escuto alguém falando mal de algum baiano eu logo saio de perto pq não vou me desgastar com gente assim. Eu não sou baiana mas sou filha de um baiano maravilhoso e isso me afeta como se todas as ofensas que escuto são pra mim…. Sou do RJ e vim pra cá pelo mesmo motivo que seu rs e não vejo olhares tortos por causa da minha cor de pele (sou negra) ou pelo meu sotaque mas aposto que se eu tivesse o sotaque baiano isso iria ser diferente… aqui tem muitos haitianos, tenho uma vizinha de SP, e pelo que já vi e ouvi, esse preconceito contra eles não existe (amém!!) … não entendo pq essa perseguição exclusivamente contra os baianos 🙁

    • Ster Nascimento

      6 de fevereiro de 2016 12:46

      Oi Rai, que legal que mora aqui! Podemos marcar um dia pra nos encontrarmos! <3 Então, eu já presenciei algumas cenas de preconceitos contra outras lugares, como os haitianos por exemplo. O preconceito contra a cor, é mais velado mesmo. Em forme de piadinhas. Mas realmente, existe uma rejeição maior contra os baianos (e nordestinos). Fico feliz que tenha visitado o Desventuras e que mora tão pertinho! Tem uma outra garota aqui que queria me conhecer também. Poderíamos marcar de nos encontrar! ^^

  3. Sarah

    27 de janeiro de 2016 16:28

    Nossa Ster! Que triste! Também sou do extremo sul baiano (Teixeira de Freitas), mas vivo no Sudeste (interior de São Paulo, Rio de Janeiro, interior do RJ e agora Vitória) há 12 anos. Sim, as piadinhas são constantes.
    Imagina a minha tristeza em descobrir que aqui “baianagem” é sinômino de” barbeiragem”, que os blocos de concreto que fecham a minha rua e a tornam sem saída são chamados de “gelos baianos” e inúmeras outras situações.
    Mas tenho muito orgulho de ser baiana e posso dizer que fiquei muito feliz de ver que, uma blogueira antenada como você, que nos dá altas dicas, era minha conterrânea.

    • Ster Nascimento

      27 de janeiro de 2016 21:41

      Ei Sarah, e eu sou de bem pertinho, Caravelas! Já morei um tempinho em Teixeira de Freitas. Sim, é realmente triste saber. A gente sente um tipo de constrangimento estranho. E fico muito feliz em saber que você gostou! <3

Leave a Comment