Cabelo crespo e resistência

Cabelo crespo e resistência

Hoje é dia 20 de novembro, o Dia da Consciência Negra, apesar de muita gente o julgar desnecessário, precisamos falar sobre algo que foi o meu ponto de partida para buscar o empoderamento e que me dá forças para seguir em frente: o cabelo crespo como ato político.

É claro que assumir seu cabelo não é a única forma de buscar esse empoderamento, e não existe nenhuma obrigatoriedade nisso, afinal, antes de tudo você precisa ter liberdade para fazer o que quiser com ele.

Quando comecei a escrever sobre cabelos crespos, mal tinha ideia de que iria descobrir muito mais do que dicas sobre estética capilar. Embora muita gente assuma seu cabelo por moda ou para seguir as tendências midiáticas, existe um discurso que precisa ser levado em consideração quando falamos da aceitação do cabelo natural.

Cabelo crespo e racismo

É engraçado como a palavra RACISMO faz tanta gente se sentir desconfortável e quando são levantadas discussões sobre isso, há sempre alguém para tratar a situação como vitimismo ou afirmar que o racismo já foi há tempos extinto.

Em primeiro lugar, precisamos entender que o racismo nem sempre vem de forma gritante. Muita gente acha que atos racistas são só aqueles tão absurdos a ponto de chocar e causar uma comoção grandiosa. Mas se olharmos a estrutura social em que vivemos, vamos perceber que o racismo está presente até nas mais simples situações diárias, muitas delas tão veladas que passam despercebidas. Por exemplo, a pouca representatividade negra nas mídias e em altas posições sociais, o “embranquecimento” das características negras  ou a supervalorização da estética européia.

Mas o que isso tem haver com meu cabelo crespo?

Minha irmã tem o cabelo tipo 4B, e a minha textura 3C muitas vezes me permitia escapar dos comentários mais maldosos sobre nossos cabelos. Mas a minha irmã cresceu ouvindo “manda sua mãe prender o seu cabelo!”, “mas ela nasceu com cabelo ruim!”, “esse cabelo duro não tem mais jeito.”, “ela puxou a quem com ESSE cabelo?”, e na minha cabeça, tinha muita sorte de ter nascido com um cabelo “melhorzinho” (era assim que me diziam).

Naquela época eu não imaginava o quanto isso fazia mal para ela e refletia na sua autoestima, muito menos imaginava que tinha tanto racismo impregnado ali. Mas eu não poderia saber se não me dissessem ou se mais tarde não procurasse saber mais a respeito.

O mais interessante, é que essa não é uma situação isolada. Por muito tempo, o cabelo crespo foi visto como algo ruim e para algumas pessoas, era vergonhoso ter uma estrutura capilar assim.

Prova disso, é que muita gente tentou (e ainda tenta) disfarçar qualquer característica que pudesse trazer à tona sua negritude. “Ah, mas isso é uma questão de escolha!”, NÃO! Quando a estrutura social é racista e a estética europeizada é supervalorizada, não há espaço para quem não se encaixa (pelo menos é o que pensávamos).

Quando a sociedade nos diz que devemos “domar nossos cabelos”, significa que para sermos aceitos, precisamos esconde-lo ou “dar um jeitinho” para ficar o mais parecido possível do padrão estabelecido.

Precisamos resistir!

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Quando falamos de cabelo crespo como ato de resistência, percebemos que a partir do momento que assumimos o nosso cabelo, podemos incentivar outras mulheres a resistirem também. Isso é uma forma de lutar, ou seja, é um ato político. Daí a necessidade de enfatizarmos esse discurso, para que cada vez mais pessoas percebam que podem fazer parte também dessa revolução.

Mas lembre-se, assumir o cabelo natural não prova que você é “mais ou menos empoderada”, e por mais que seja uma luta válida, existem muitas outras que precisam ser levadas em consideração, afinal, falar de cabelo crespo é só mais uma forma de chegarmos a discursos mais profundos e de extrema importância.

Ainda temos um longo caminho a percorrer, mas precisamos levantar a voz  e nos levantar de fato! Então mecha-se e saia da sua zona de conforto. Reflita, pesquise, informe-se, empodere-se. Busque suas forças e resista também!

Tem muito mais…

Se você quer se aprofundar mais sobre o tema, vou deixar algumas reflexões que valem a pena ver:

E o 20 de novembro? (Amanda Farah)  – Tá incrível!

Racismo no Brasil – Todos tem obrigação nessa luta (Cacheia)

A dor do racismo sobre nossos cabelos (Blogueiras negras)

Mulheres negras, moda e racismo (Cacheia)

Mulher negra e autoestima (Blogueiras Negras)

Cabelo crespo, feminismo e identidade negra (Cacheia)

 

Aqui no Desventuras:

Não é só cabelo!

Cabelo Cacheado não é moda!

 

About

Ster Nascimento

Ster Nascimento, 22 anos. Gosto do meu cabelo cacheado, do meu descontrole sem pé nem cabeça, do meu 8 ou 80 e da minha zarreza perceptível. As vezes sou um amor de pessoa.

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