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Quem que tem no caminho pra casa

São cerca de trinta minutos de ônibus da faculdade até minha casa. Trinta minutos e vários tipos de construções. Trinta minutos, vários tipos de construções e inúmeras pessoas. Todo mundo sabe que cada ser humano é diferente do outro, mas ainda assim, todos os dias aparece uma surpresa, literalmente “em forma de gente”. São sempre as mesmas construções, nunca as mesmas pessoas. Apenas trinta minutos para observar e absorver tudo isso.

É impossível descrever cada indivíduo que vi em minhas pequenas viagens, mas há traços de suas personalidades que estavam estampados em suas formas de se mostrar ao mundo. Algumas me marcaram, outras simplesmente passaram, aposto que você tem esse tipo de gente em si também. Que te marcou sem que você sequer soubesse o nome. Talvez nem precisasse.

Vi certa vez uma menina com uma autoestima tão radiante que praticamente derramava de seu corpo considerado pesado demais por padrões da maioria. Estava em seu sorriso despreocupado, em seu coque loiro bagunçado e suas mechas rosa que não sabiam onde se encaixar, e nem queriam tentar. É incrível o que a gente fala às pessoas sem nenhuma palavra, só sendo quem a gente é. Ela passava leveza.

Outra vez um motorista me viu em uma situação desesperadora: tinha perdido meu ponto às nove da noite em um dos estados mais violentos do país. Nunca vi seu rosto, estava ocupada me desesperando. Mas, mesmo que não fosse obrigado, ele parou no meio do caminho pra que eu pudesse ficar mais perto de casa. Foi apenas uma pisada rápida em um pedal, mas ele me passou bondade.

Não se engane, vi pessoas que passavam coisas bem ruins em ônibus da vida. Ás vezes “apenas” um olhar preconceituoso para meu black power, uma resposta rude a uma pergunta sobre localização de algo. Coisas “pequenas” que mostravam quem eram aquelas pessoas. Mas, sinceramente, prefiro guardar outro tipo de gestos “pequenos”. Os que fazem a gente ter esperança de um mundo melhor, sabe? Ás vezes é um “quer que eu segure sua bolsa?” quando o veículo está lotado e temos que ir em pé, ou “seu cabelo é lindo do jeito que ele é” dito por uma senhora quando me levanto para descer em meu ponto.

São cerca de trinta minutos da minha casa até a faculdade. Trinta minutos e vários tipos de construção. Trinta minutos, vários tipos de construção e inúmeras pessoas. Será que já marquei alguma delas de alguma forma? Se marquei, espero que tenha sido de uma forma boa. Espero não ter focado em meus problemas e esquecido de sorrir por estar satisfeita com quem eu sou. Espero não ter deixado passar uma mochila pesada que eu podia segurar. Que Deus me livre de segurar um elogio sincero. E que por favor, eu nunca me permita omitir um “boa tarde” alegre a um motorista, por que nunca saberei qual me ajudou tanto naquela noite.

quem que tem no caminho para casa

Quem que tem no caminho pra casa, por Jade Katlen

 

 

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Ster Nascimento, 22 anos. Gosto do meu cabelo cacheado, do meu descontrole sem pé nem cabeça, do meu 8 ou 80 e da minha zarreza perceptível. As vezes sou um amor de pessoa.

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