O que a ANSIEDADE me tirou

O que a ANSIEDADE me tirou

Oi gente! Tudo bem com vocês? Há tempos venho falando  lá nas redes sociais, sobre as lutas que travo com a ansiedade e como isso afeta a minha vida profissional, social e pessoal. Por isso, hoje trouxe um post, explicando com mais clareza,  o que tem acontecido comigo.

Lembrando que eu não sou especialista no assunto, e o blog não trata especificamente desse tipo de conteúdo, por isso vou deixar referências de um cantinho que tem me ajudado bastante nesse processo. Mas como geralmente compartilho muito da minha vida com vocês, acho importante falar sobre minha experiência pessoal.

Antes de tudo, é muito importante ressaltar que existem dois tipos de ansiedade, a Ansiedade Natural, que é aquela que sentimos quando nos deparamos com situações que nos deixam apreensivos, e naturalmente, nosso organismo age para nos avisar ou evitar que essas situações desagradáveis aconteça.

E a Ansiedade Patológica, é aquela que acontece frequentemente de forma incomum, sem que haja uma situação específica ou algo para explicar. Ela acontece seguida de sintomas físicos muito ruins, e da sensação de se sentir incapacitada, chegando a trazer sérios prejuízos para a vida de quem sofre desse transtorno.

Entenda melhor:

Ansiedade um sinal de alerta

Uma batalha no combate à ansiedade

A primeira crise de pânico a gente não esquece!

Desde muito nova sofro com os efeitos da ansiedade e da hiperatividade, mas por muito tempo, acreditei ser parte da minha personalidade, como sempre ouvi das pessoas: “_A Ster tem um gênio difícil”.

As coisas se agravaram, quando tive a minha primeira crise de pânico. A sensação foi horrível, porque até então, não tinha a mínima noção do que estava acontecendo, ainda me lembro como se fosse hoje; tinha 18 anos e estava prestes a fazer uma cirurgia no olho (um transplante de córnea).

Estava sentada na área externa da casa dos meus pais, ouvindo música nos fones de ouvido.  De repente, senti um medo inexplicável, não foi medo de algo específico. Parecia que estava completamente desprotegida e que a qualquer momento, todo mal iria me acontecer. A primeira reação que tive, foi de me trancar no lavabo externo, me ajoelhar e tentar pedir a Deus pra que aquele mal fosse embora. Mas não resolveu. Ao invés disso, vieram os sintomas físicos, falta de ar e uma sensação angustiante de sufocamento, e de que a qualquer momento eu poderia cair, ou desmaiar. Uma sensação de fraqueza, desespero e de impotência. Eu não conseguia sair do lugar que estava, sentei no chão e parecia que fisicamente eu não conseguia sair dali. Tinha medo de me levantar, de acender a luz, de me mover. É realmente terrível!

Lembro que na época, estava passando por muita coisa. A surpresa da cirurgia, o conflito de estar afastada dos princípios religiosos, um relacionamento instável (e obsessivo) que me sugou toda a autoestima, a insegurança por ter largado a faculdade para cursar um outro curso, etc. Tudo isso, foi cenário suficiente para que se desencadeasse minha primeira crise, que por se tratar de um momento específico e uma situação isolada, acreditava ser uma crise de ansiedade, que não me traria maiores consequências depois.

Mas nossa mente é muuuuito mais complexa do que imaginamos!  Como venho de uma família cristã (durante minha infância e adolescência passei por muitas situações de extremismo religioso), e  estava passando por um conflito muito grande relacionado às minhas crenças religiosas, imaginei que era consequência do meu afastamento de Deus, falta de fé, ou como muitos acreditam, falta de comunhão. Isso me causou uma revolta muito grande, e a certeza de que enquanto não fizesse as coisas corretas aos olhos de Deus, estaria desprotegida e suscetível a todo e qualquer mal que minha alma ou corpo pudesse sofrer. (Acho importante falar disso em especial, por que mais tarde, essa ideia errada acerca dos sintomas me trouxeram prejuízos muito maiores).

Ansiedade nossa de cada dia

O tempo passou, e apesar de não sofrer com crises mais intensas, tinha que lidar diariamente com os sintomas da ansiedade que vão desde estresse e irritabilidade contínua, a longos períodos de insônia, problemas digestivos, mau humor frequente, cansaço físico, enxaqueca, mudanças repentinas de humor, compulsividade, impulsividade, muita inquietabilidade, preocupação excessiva e etc.

Nem eu mesma entendia porque estava sempre com raiva de tudo e todos, tinha picos de humor, não conseguia ficar quieta e vivia de “mal com a vida”. Com o tempo, isso foi minando a minha vida social, e eu vivia me perguntando em que momento havia me perdido e deixado de ser eu mesma. Deixava de responder as pessoas que falavam comigo, saia com menos frequência, falava menos com meus amigos, sentia muita insegurança de conhecer pessoas novas… Me mantive numa bolha que se agravou, quando me casei com um carinha muito caseiro, que não se importava em passar os fins de semana assistindo maratonas de séries na Netflix.

No trabalho as coisas eram cruéis, a sensação de nunca estar agradando e semanalmente chegava em casa com a sensação de que seria demitida, de estar fazendo algo errado. Mas não era apenas uma sensação, o sentimento é de que aquilo realmente iria acontecer. Suava frio, ficava sem dormir, começava a fazer planos caso a notícia (que nunca veio) chegasse!

Ansiedade não é de Deus!

Essa foi a afirmação que mais ouvi e reproduzi quando mais tarde, aquela crise de ansiedade isolada, virou Síndrome do Pânico. A princípio, as crises de pânico vem sem mais nem menos, duram alguns minutos (no meu caso era cerca de 30 a 40 minutos), e terminam da mesma forma que começam, deixando apenas um cansaço horrível e o medo desesperador de que aquilo aconteça novamente, e o pior é que acontece!

Lembra que eu falei que os conflitos religiosos desencadearam algumas das minhas crises e trouxeram alguns (na verdade muitos) prejuízos? Pois bem! É muito importante que as pessoas que convivem com a gente, tenham muito cuidado ao lidar com situações do tipo. É claro, que a maioria delas, não sabem que estão nos prejudicando, e assim como nós, não tem conhecimento de que muitas vezes sofremos de transtornos graves, que não possuem cunho espiritual ou religioso.

É claro que como cristã, creio na bíblia e acredito na intervenção de Deus na vida terrestre. Assim como tenho conhecimento dos conflitos espirituais que estão acima da nossa compreensão. Tenho certeza, que para alcançar a felicidade plena, precisamos buscar o equilíbrio entre corpo, mente e espírito. Mas assim como o corpo enfrenta doenças que precisam ser tratadas, quando a mente adoece, não deve ser curada apenas com “orações”.

Acredito que Deus disponibiliza diversos meios para a cura, como remédios, médicos e pessoas dotados de capacidade para conduzir os tratamentos que precisamos. Mas também, creio que quando ao lado de Deus a eficácia desses tratamentos ocorre segundo Sua vontade e ajuda. Portanto, pra mim, orar também faz parte do tratamento!

Nesse período que desenvolvi a Síndrome do Pânico, sempre ouvia dos meus familiares que deveria orar mais, me livrar das coisas que me afastavam de Deus, buscar a ajuda de Deus, afastar o mal da minha vida. Tudo isso me levou a acreditar que o que estava passando era apenas espiritual, e que se estivesse perto de Deus, ficaria bem.

Mas as crises só pioraram, passei mais de um mês tendo crises de pânico diárias. Não conseguia sair de casa, com medo daquilo acontecer a qualquer momento. Quando tive minha primeira crise na igreja, em um domingo à noite, foi o suficiente para ter a certeza de que jamais conseguiria estar perto de Deus o suficiente para me livrar desse mal.

Passei muito tempo sem conseguir entrar em uma igreja, sempre que ouvia algo relacionado, ou passava por perto de qualquer templo religioso, cruzava a rua e tentava passar o mais longe possível.

Expliquei melhor no post Transtornos mentais e Extremismo religioso no blog Virus da Arte.

O que a ansiedade me tirou

Depois de muita luta, e após muitas conversas com pessoas que encontrei ao longo do caminho, decidi levar meu tratamento a sério. Após muitas tentativas falhas de psicoterapia (eu tinha medo até de fazer terapia), resolvi deixar de lado o meu medo e encarar de frente o tratamento medicamentoso e psicoterápico.

Hoje diagnosticada com Transtorno de Ansiedade Generalizada, Síndrome do Pânico e Transtorno de humor, começo a sentir os primeiros resultados dos medicamentos, apesar de no momento estar travando uma guerra com os efeitos colaterais que também não são nada bons (geralmente, esses transtornos são tratados com antidepressivos, ansiolíticos e psicoterapia, mas isso é conversa pra outro momento).

Mas olhando pra todo esse tempo de sofrimento; os momentos que deixei de viver, lugares que deixei de ir, oportunidades que perdi, pessoas que magoei, os quadros depressivos resultantes das fortes crises de ansiedade, o descontrole emocional… e principalmente tanta confusão e traumas causados pela interpretação equivocada acerca de Deus e da minha religiosidade. É difícil abrir meu coração assim, mas muita gente não sabe o quanto me sentia culpada por não me sentir bem dentro da igreja, e por um longo período de tempo ter deixado de frequenta-la por medo. Passei a evitar lugares com muita gente; ruas, academias, lojas, a faculdade. Deixei de viver com MEDO DO MEU MEDO!

Mas isso me fez refletir sobre a importância de estar atento ao comportamento das pessoas ao nosso redor e principalmente, de BUSCAR AJUDA! Mais do que ninguém, eu entendo que quando sofremos de transtornos mentais, temos medo de não ser compreendidos, do que as pessoas podem pensar a nosso respeito. Mas esses tabus, só dão margem ao sofrimento e nos aprisionam cada vez mais.

Assim como qualquer outro preconceito, é preciso desconstruir diariamente as ideias acerca desses tipos de transtornos, e ir atrás da ajuda que nos darão uma qualidade de vida melhor!

ansiedade

Gente, espero que esse post ajude quem esteja passando por algo parecido. É bom saber que não estamos sozinhos e que existem soluções para os nossos problemas! Lá no canal vou contar direitinho minha experiência ao longo do tratamento, mas antes, queria contar aqui no blog também. Gosto de ficar pertinho de vocês, e compartilhar o que sinto sempre me ajuda. Se alguém quiser e se sentir à vontade para compartilhar sua experiência, pode comentar aqui embaixo! Vou adorar ler e responder os comentários de vocês.

Um beijo,

Ster.

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Ster Nascimento

Ster Nascimento, 22 anos. Gosto do meu cabelo cacheado, do meu descontrole sem pé nem cabeça, do meu 8 ou 80 e da minha zarreza perceptível. As vezes sou um amor de pessoa.

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4 comments
  • Lenara

    setembro 8th, 2017 18:13

    Olá Ster! Quero te agradecer pela coragem em compartilhar a sua experiência conosco. Tenho passado pelo mesmo problema, só que no meu caso além da crise de ansiedade, fui diagnosticada também com depressão. Assim como você, no início achava que tudo que sentia era normal, fruto da pressão no trabalho ou do mestrado, mas com o tempo vi que precisava de ajuda. As pessoas ao nosso redor não entendem o que sentimos, alguns acham que é falta de comunhão com Deus ou até mesmo atuação e (coisas do mal). Ainda existe um tabu e um preconceito muito grande em se falar sobre doenças mentais, o que só dificulta o diagnóstico e o tratamento da doença. Comecei a fazer o tratamento, estou usando antidepressivos a pouco mais de duas semanas e sei bem o que você tem passado com os efeitos colaterais, mas ficaremos bem. Bem, é isso! Só queria te dizer que você não está só. E se alguém estiver passando pela depressão, crise de ansiedade ou qualquer outro transtorno mental, procurem ajuda. Não ignorem os sintomas e nem tenham medo dos julgamentos ou preconceitos. O importante é estar bem! Abraços

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    • Ster Nascimento

      setembro 8th, 2017 18:45

      Oi Lenara, que bom receber esse seu comentário! Fico muito, muito feliz mesmo em saber que não estou sozinha nessa luta. Compartilhar nossa experiência pode fazer com que outras pessoas não precisem levar tanto tempo pra buscarem ajuda, como nós. Depois dá uma passadinha no Blog Virus da Arte, deixei alguns links de lá aí no texto. A Lu é autora de lá, e há bastante tempo fala com muito carinho sobre Transtornos Mentais. Lá a gente encontra várias pessoas que passaram por essa fase inicial do tratamento, e hoje tem ótimos resultados. Ler esses relatos tem me dado coragem para não desistir! :)

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  • Karina Almeida

    setembro 8th, 2017 17:38

    Olá, meu nome é Karina e sofro também de transtorno de ansiedade e humor. Incrível, como existem muitas pessoas que não se dispõem a compreender o que de fato é ansiedade para ajudar. Vivemos em um mundo individualista é cada vez mais percebo que as pessoas querem ser aceitas e não aceitar, querem ser vistas, mas não querem ver. Enfim, só nós sabemos o leão que matamos a cada dia e ver que você está vencendo este leão também me faz ter mais incentivo à lutar também. Grata por compartilhar sua experiência e sempre que possível faça sempre isso, pois ajuda e muito a gente do lado de cá da tela. Abraços e continue firme com Deus somos vencedores.

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    • Ster Nascimento

      setembro 8th, 2017 17:57

      Oi Karina, que ótimo ver esse seu comentário! Essa respostas de vocês, também ajuda MUITO eu que estou do lado de cá! Sim, acho que esse individualismo faz a maioria das pessoas fecharam os olhos pra muitas coisas, e não dão um certo receio de compartilhar o que sentimos. Fico feliz, que mesmo pouquinho, minha experiência foi um incentivo pra você. Muito obrigada! <3

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