Nós não temos que nada!

Nós não temos que nada!

Alisamentos constantes, a ardência do formol, as horas tendo o cabelo puxado até que as curvas se tornassem uma estrada reta… O olhar no espelho e não se sentir segura. Essa são minhas principais lembranças da sofrida época de submissão à ditadura do liso. Tive minha carta de alforria não do cabelo liso em si, mas do ter que ter cabelo liso, do ter que ser de um jeito que eu não era.

E agora, depois de lutar e vencer a guerra da transição para ser livre vejo tudo isso ameaçado por ideais de cabelo cacheado ou por pessoas que não aceitam que outras alisem o próprio cabelo. Eu, sinceramente, não cheguei até aqui para isso. Não saí da zona de conforto para “baixar esse volume”, “você tem que deixar os cachos”, “e esse frizz?”, “por que você não deixa o cabelo como o de Fulana, olha que cachinhos definidos”.

desventurasPor que meu cacho não é no formato do de Fulana como não era liso como o de Cicrana. Por que eu gosto de me ver assim como estou agora. Mas, principalmente, por que eu não tenho que nada! O que vejo é que quando mais fechado o cacho (indo pro tipo 4) mais fechada também é a expressão de algumas pessoas quando o veem. Observo que amigos criticam outros pelo simples fato de gostarem mais de seus fios de outro jeito. Uns cabelos nascem lisos, outros ondulados, cacheados e outros crespos, onde está a dificuldade de entender que cada um tem sua beleza? Onde está a dificuldade de entender que ninguém é obrigado a ficar com uma aparência que não quer e pode sim mudar?

Foi por isso que lutamos esse tempo todo? Pra construir um novo padrão opressor? Mas dessa vez é pra oprimir o tipo de pessoas que costumávamos ser. Não nos lembramos de como é ter que agradar os outros a qualquer custo?

Felizmente, somos vacinadas, não cabemos mais em caixinhas, não engolimos ditaduras. E sabemos que a única coisa que a gente tem que é olhar no espelho e estar satisfeita com o que vê, seja com tom de pele, cor e formato dos olhos, nariz, corpo. Seja alisada, cacheada, crespa, loira, morena, ruiva. Seja de cabelo no chão ou careca. Seja como for, mas seja verdadeira com você mesma e nunca abra mão desse dever.

About

Jade Katlen

Sou alguém que vive de mudanças (de ares, de cabelos, de ideias) e que não perde a essência. Gosto também conhecer pessoas e lugares novos, amo calor e frio na mesma proporção e palavras um pouco mais. Ah, e meus pensamentos, assim como meus cabelos, são muito bagunçados.

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1 comment
  • Ana Carolina

    julho 6th, 2016 23:00

    Pois é, a gente simplesmente TEM QUE respeitar os outros e cuidar da própria vida. E ponto final. Parabéns pelo post!

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