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Inspire-se em Mariana Martins

TRANSIÇÃO-CAPILAR

Hoje eu estava selecionando os textos da categoria INSPIRE, que ainda é um bebê aqui ano blog, e me deparei com esse relato INCRÍVEL e MARAVILHOSO da Mari. Arrisco em chama-la intimamente, porque após ler esse texto, lembrei porque o Desventura de uma Cacheada é tão importante pra mim. Porque desde o começo, batalho tanto pra ter voz e dar voz “pra gente”. Sim, pra gente, porque esse cantinho não seria tão incrível se não fosse por vocês.

Não vou falar mais, vou deixar vocês lerem esse texto revigorante. Leia, reflita, Inspire-se!

Meu nome é Mariana Martins, tenho 20 anos, sou “vestibulanda” de medicina e sou moradora da periferia de São Vicente, Baixada Santista.

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Mariana Martins, 20 anos

Eu penso que seria interessante iniciar esse relato sobre inspiração e o que é ser mulher negra contando uma experiência relativamente recente. Fui ao meu primeiro evento afro chamado “Mulheres Negras: Existem e Resistem” no Sesc Santos e, se me pedissem para resumir a minha experiência lá em poucas palavras, eu diria: empoderamento e ancestralidade. Reunir em um mesmo local várias pessoas, principalmente mulheres negras, para a promoção da cultura afro-brasileira e de ações de combate ao racismo, xenofobia, discriminação e intolerância em suas variadas formas é de uma sensação indescritível.

Naquele dia, eu não contive as lágrimas em diversos momentos e eu jamais imaginaria que sentiria tanta emoção ao encontrar pessoas como eu. Talvez seja porque eu me senti representada em presenciar o protagonismo de negros e negras em um evento num mundo essencialmente segregacionista, racista, machista, LGBTfóbico, onde falta a visibilidade para nós. Jamais irei me esquecer de quando encontrei a Preta-Rara e ela logo me deu um abraço forte e acolhedor, dizendo: “Todas nós somos inspirações!”.

Lembro-me da primeira vez que senti o peso da palavra “negra”. Na primeira série do Ensino Fundamental, aos 7 anos, estava entrando na sala de aula após o lanche e uma menina passou correndo por mim e me derrubou no chão. Quando eu levantei e olhei para ela, eu só ouvi saindo da sua boca: SUA NEGRA! Hoje, com 20 anos, lembro-me perfeitamente como se tivesse acontecido ontem.

Eu não culpo essa garota porque, na época, ela era apenas uma criança e só reproduziu o que foi ensinado a ela. Desde então comecei a negar as minhas características físicas, principalmente o meu cabelo, que era enorme, e a minha boca. Não permitia que cortassem mais que dois dedos do meu cabelo porque ele tinha que ser comprido para reduzir o volume. Com isso, iniciaram-se as falhas no couro cabeludo porque eu só vivia com o cabelo preso e, não satisfeita, ele sempre estava úmido para evitar o frizz ou qualquer fio fora do lugar; caso eu quisesse usar solto, eu teria que dormir com bobes e, no dia seguinte, teria que passar a famosa chapinha.

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Quase fiquei sem cabelo quando tentei ter franja, já que eu passava a prancha várias vezes na mesma mecha todos os dias. Não cheguei a usar química no cabelo por causa do alto custo, considerando o tamanho e a quantidade do meu cabelo, mas confesso que foi muito tentador. Entre os meus 15 e 16 anos eu não me olhava no espelho, me achava feia e não me sentia atraente… apenas rejeitada pela sociedade por não pertencer aos padrões estéticos e sociais. Foram anos assim. As consequências dessa rejeição perduraram por toda minha infância e minha adolescência e hoje eu vejo o quanto o racismo e falta de representatividade na infância faz total diferença na criação e reconhecimento da identidade.

Hoje eu me amo, me admiro, me aceito e sou muito feliz! Antigamente eu achava que era impossível, por exemplo, ter franja com o cabelo cacheado ou usá-lo curto por causa do volume. Este mês faz dois anos que eu doei 20 centímetros do meu cabelo para a campanha Outubro Rosa e, para mim, foi um ato de coragem e libertação. Foi uma quebra de paradigmas. Não sossego enquanto o meu cabelo não está volumoso e o batom vermelho, outro aspecto que eu renegava para não chamar atenção, já virou minha marca registrada.

O amor próprio é revolucionário e ouvir que você é exemplo de inspiração para outras pessoas, principalmente mulheres negras, não tem preço. Mas alguém pode dizer: mas você só fala de estética? Não, eu não só falo de estética, mas negro se sentir bem consigo mesmo incomoda. Incomoda não aceitar a piada racista. Incomoda não abaixar a cabeça. Incomoda ocupar os espaços. Incomoda existir. Incomoda muita gente.

Não sou formada em nenhuma faculdade, aliás, ainda nem iniciei uma, porém me sinto privilegiada de ter acesso à informação, saber ler e escrever porque sou da periferia e vejo de perto o quanto é difícil ter acesso à educação de qualidade. E esses são os motivos pelos quais eu escrevo diariamente, por exemplo.

Todos os dias eu pego ônibus lotado e me desloco por quilômetros para estudar no cursinho que os meus pais suam para pagar para que eu tenha a oportunidade de conquistar o meu sonho de ser médica. Vejo o meu povo sujeito a uma carga horária abusiva de trabalho, a longas horas dentro de um transporte público, a oportunidades restritas ao ambiente universitário, à segregação diária enquanto eu me encaminho para um colégio localizado em uma área nobre da cidade vizinha, onde a quantidade de negros pode ser contada nos dedos.

É uma luta diária e eu estou ciente que, quando eu estiver na universidade, essa situação não será diferente. Outro sonho é de, seja para onde eu for, promover um projeto de assistência à saúde da população em vulnerabilidade social e, além disso, dar auxílio de redação em algum cursinho popular, que geralmente são organizados por estudantes, para que demais indivíduos possam ocupar o espaços acadêmicos que são deles por direito. Eu acredito na emancipação por meio da educação, que nós podemos escrever a nossa própria história e eu seguirei lutando pelos direitos do meu povo e pela minha vaga na universidade. Todo apoio que recebo ao longo da minha trajetória me dá forças e me empodera cada vez mais para seguir em frente, pois é indício que estou seguindo pelo caminho certo.

Por fim, o trabalho de base é muito importante e, como eu costumo dizer, a mudança não é feita do macro para o micro, mas, sim, do micro para o macro. Gostaria de finalizar com uma citação de Angela Davis, que me acompanha por toda a minha trajetória e que me estimula na luta diária:

“Eu não estou mais aceitando as coisas que não posso mudar. Eu estou mudando as coisas que não posso aceitar”.

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Existismos. Seguimos. Resistimos.

Mariana Martins, São Vicente – Baixada Santista

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